segunda-feira, 18 de maio de 2009

A bicicleta desgovernada

Desnecessário seria dizer que a reação de embabacamento experimentada por ela no momento em que viu a bicicleta desgovernada é experimentada por todos ali que presenciam a cena. Mas antes, não podemos passar sem a explicação sobre o adjetivo usado para caracterizar a atual situação da bicicleta: desgovernada. Alguém pode nesse momento estar se perguntando se a bicicleta está a andar batendo às coisas e aos muros e, se sim, como até agora não caiu. Mas não é isso o que as pessoas vêem, mas sim uma bicicleta que anda à calçada cimentada, sem bater, numa velocidade nem rápida e nem lenta. Ora essa, e por que então do adjetivo a lhe manchar as correias, perguntaria outra pessoa. E a resposta é exatamente pelo simples detalhe de ninguém a governar, restando, para essa tarefa, apenas sua própria vontade bicicleta. Ora, ninguém ali, presente naquela casa, mesmo que acostumados a discutirem a questão sobre as diferentes formas de se viver, falar, cheirar, ouvir, tatear e degustar essa nossa existência, dependendo, essas formas, exatamente do que, num frágil acordo, as pessoas concordam a cerca do que é vontade e sua potência criadora e destrutiva, enfim, mesmo que seja rica essa discussão, ninguém ali presente já ouvira, vera, pensara ou imaginara a vontade de uma bicicleta, daí a nossa precipitada e errônea conclusão que diz que as bicicletas não possuem vontade própria. Mas também, mesmo que errônea a conclusão, espero que o relato não seja reprimido, pois afinal não se vê por aí, a cada esquina, bicicletas com vontades próprias, o que deixa passar com permissão a adjetivação, imprópria, porém coerente, de desgovernada à bicicleta da garota.

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